Pesquisa sobre Vergonha e Culpa
O estudo que mostrou por que dizer "eu errei" é diferente de acreditar que "eu sou o erro".
Vergonha e culpa costumam ser tratadas como sinônimos. No entanto, décadas de pesquisa mostram que essas emoções funcionam de maneiras bastante diferentes e podem produzir consequências emocionais igualmente diferentes.
Grande parte desse conhecimento vem do trabalho da psicóloga June Tangney, uma das principais pesquisadoras do tema.
O que os pesquisadores investigaram
Ao longo de vários estudos, Tangney e seus colaboradores buscaram compreender como as pessoas reagem quando cometem erros, fracassam ou causam algum dano.
Os pesquisadores observaram que duas respostas emocionais apareciam com frequência: culpa e vergonha.
Embora pareçam semelhantes, elas seguem caminhos bastante distintos.
A principal diferença encontrada
Segundo as pesquisas, a culpa costuma estar relacionada ao comportamento.
A pessoa pensa:
- "Eu fiz algo errado."
- "Cometi um erro."
- "Gostaria de agir de outra forma."
Já a vergonha costuma atingir a identidade.
Nesse caso, os pensamentos tendem a assumir formas como:
- "Há algo errado comigo."
- "Sou inadequado."
- "Sou um fracasso."
- "Não sou bom o suficiente."
O foco deixa de estar na ação e passa a estar na própria pessoa.
O que acontece quando sentimos culpa?
As pesquisas mostraram que a culpa costuma estar associada a comportamentos reparadores.
Pessoas que sentem culpa tendem com maior frequência a:
- reconhecer erros;
- pedir desculpas;
- assumir responsabilidades;
- buscar corrigir danos causados.
Por isso, os pesquisadores não consideram a culpa necessariamente prejudicial. Em muitos casos, ela ajuda a preservar relacionamentos e promover aprendizado.
O que acontece quando sentimos vergonha?
A vergonha apresentou um padrão diferente.
Quando a pessoa conclui que o problema está em quem ela é, e não apenas no que fez, torna-se mais comum observar:
- isolamento;
- evitação;
- desejo de esconder-se;
- defensividade;
- baixa autoestima.
Em vez de estimular reparação, a vergonha frequentemente produz afastamento e sofrimento.
O que isso tem a ver com inadequação?
Poucas emoções estão tão próximas do sentimento de inadequação quanto a vergonha.
Muitas pessoas não sofrem apenas porque cometeram erros. Elas sofrem porque passam a acreditar que os erros revelam algo fundamentalmente errado sobre quem são.
É nesse momento que a experiência deixa de ser "eu falhei" e passa a ser "eu sou uma falha".
Segundo as pesquisas, essa diferença pode ter impacto profundo sobre autoestima, relações e saúde mental.
Os estudos de June Tangney ajudam a compreender por que culpa e vergonha produzem efeitos tão diferentes.
Enquanto a culpa costuma estar relacionada ao comportamento, a vergonha frequentemente atinge a identidade.
E talvez seja justamente por isso que ela esteja tão presente em experiências de inadequação, não pertencimento e sofrimento emocional persistente.
Fonte da pesquisa: Tangney, J. P. Shame and Guilt. American Psychological Association (APA Monitor). https://www.apa.org/monitor/jun01/tangney