Pesquisa sobre Redes Sociais e Comparação Social
A revisão científica que investigou como as redes sociais podem intensificar comparações e influenciar a forma como as pessoas enxergam a si mesmas.
A comparação social existe muito antes da internet. As pessoas sempre observaram umas às outras para avaliar suas capacidades, escolhas e posição no mundo.
Mas as redes sociais criaram uma situação inédita: hoje é possível comparar a própria vida com centenas ou milhares de pessoas diariamente.
Essa mudança despertou o interesse de pesquisadores que passaram a investigar como plataformas digitais influenciam autoestima, bem-estar e saúde mental.
O que os pesquisadores investigaram
Em 2017, uma revisão científica reuniu estudos sobre redes sociais, comparação social e bem-estar psicológico.
O objetivo era compreender se plataformas digitais poderiam amplificar processos de comparação já conhecidos pela Psicologia Social.
Os pesquisadores analisaram trabalhos envolvendo adolescentes, jovens adultos e usuários de diferentes redes sociais.
O que a pesquisa encontrou
Os estudos mostraram que as redes sociais criam um ambiente especialmente favorável à comparação.
Isso acontece porque as pessoas tendem a compartilhar principalmente aspectos positivos de suas vidas, como:
- conquistas pessoais;
- momentos felizes;
- viagens;
- relacionamentos;
- sucessos profissionais;
- mudanças positivas.
Como resultado, os usuários frequentemente entram em contato com versões cuidadosamente selecionadas da vida de outras pessoas.
Os pesquisadores encontraram associações entre comparação frequente nas redes sociais e:
- menor satisfação com a própria vida;
- redução da autoestima;
- sentimentos de inferioridade;
- inveja;
- aumento de emoções negativas.
O problema não parece ser apenas o tempo de uso
Uma das descobertas mais interessantes da revisão foi que os efeitos observados não dependiam apenas da quantidade de tempo gasto nas redes.
A forma de utilização parecia ser igualmente importante.
Usuários que passavam longos períodos observando a vida de outras pessoas sem interação significativa apresentavam maiores níveis de comparação social e insatisfação.
Isso sugere que o impacto das redes sociais está relacionado não apenas ao acesso às plataformas, mas à maneira como elas são utilizadas.
A comparação entre realidades diferentes
Ao observar a própria vida, uma pessoa conhece seus medos, inseguranças, fracassos, dúvidas e dificuldades.
Ao observar outras pessoas nas redes sociais, geralmente vê apenas aquilo que foi escolhido para ser mostrado.
Essa diferença pode criar uma percepção distorcida.
A vida dos outros passa a parecer mais interessante, mais feliz, mais organizada ou mais bem-sucedida do que realmente é.
E quanto mais frequente for essa exposição, maior pode ser a sensação de estar ficando para trás.
O que isso tem a ver com inadequação?
Muitas experiências de inadequação são alimentadas pela comparação.
Uma pessoa pode começar a acreditar que não é suficientemente bonita, produtiva, inteligente ou bem-sucedida porque está constantemente observando versões idealizadas da vida alheia.
O problema é que a comparação raramente acontece entre experiências equivalentes.
De um lado está a realidade completa da própria vida.
Do outro, fragmentos cuidadosamente selecionados da vida dos outros.
Nessas condições, a sensação de insuficiência tende a crescer.
As redes sociais são necessariamente prejudiciais?
Não.
Os próprios pesquisadores destacam que as redes sociais também podem facilitar conexão, apoio social, aprendizado e troca de experiências.
O ponto central da pesquisa não é demonizar a tecnologia, mas compreender como ela pode amplificar mecanismos psicológicos que já existiam antes dela.
A comparação social é um desses mecanismos.
A pesquisa sugere que as redes sociais não criaram a comparação social, mas aumentaram significativamente as oportunidades para que ela aconteça.
Ao oferecer acesso contínuo às conquistas, experiências e imagens de outras pessoas, elas ampliam os parâmetros que utilizamos para avaliar nossa própria vida.
Talvez isso ajude a explicar por que tantas pessoas convivem hoje com sentimentos de insuficiência, inadequação e a impressão constante de que nunca estão fazendo o bastante.
Fonte da pesquisa: Verduyn, P., Ybarra, O., Résibois, M., Jonides, J., & Kross, E. (2017). Do Social Network Sites Enhance or Undermine Subjective Well-Being? A Critical Review. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5426278/